Sábado à tarde.
Aquele dia do fim de semana de fazer tudo aquilo que não deu para fazer durante a semana.
E a tal coisa que não deu para fazer era consertar a torneira.
Olha daqui, olha dali e lá vem a pancada de chave hidráulica na cabeça: faltava a chave hidráulica.
Da área de serviço direto para o Google.
Digito: comprar chave hidráulica.
Primeira página, nada.
Segunda, nada.
Na terceira encontrei.
Não a chave hidráulica.
Encontrei Jesus.
Não me pergunte como.
Eu mesmo já me perguntei várias vezes e a única resposta que me satisfez foi Jesus.
Estava ali, no 5º link.
Igreja Tetracostal.
Que Deus me perdoe, mas achei que tinha alguma coisa a ver com acidentes que impossibilitam pessoas de mover as pernas e, por pura curiosidade mórbida, entrei.
Nenhum tetraplégico, até porque, Jesus estava logo na página casa do sitio.
Design clean.
O Senhor nunca gastaria com design podendo investir em pão.
Textos simples.
Só na escrita já que, no fundo, eram cheios de alma.
Um link convidativo.
Converta-se, pelo amor de Deus, dizia ele.
Cliquei.
A barrinha começou a subir.
Junto com ela, minha fé.
Convertendo: 1%. 2%. 40%.
A cada porcento, uma frase de iluminação:
41%: Deus é pai e nós somos seus filhos.
56%: Deus é pai e todos somos irmãos.
67%: Deus é pai e, nós, família.
90%: Faltam 10% para completar sua conversão. Clique aqui.
Cliquei de novo, com 90% a mais de fé do que tinha nos tempos em que minha torneira funcionava.
Carregando.
Epa! Um sinal que eu estava no caminho certo: eles aceitam cartão de crédito.
Confiro os números e clico em Amém (botão que eles usaram para substituir o ok).
Transação* concluída.
Eu estava convertido.
As missas aconteceriam todos os domingos, às 7hs no msn igrejatetracostal@hotmail.com.
Nunca perdi uma, tirando aquela em que os não abençoados do Speedy não me deixaram participar. Uma outra em que molhei o teclado enquanto participava do batismo online. E teve também a vez que perdi a hora nas salas de bate-papa.
Bom, acabei não consertando a torneira.
Quando acabei de e-orar, já era domingo.
E domingo é dia sagrado.
* Mais tarde, por adequação vocabular, este infeliz termo foi substituído por ‘operação concluída’, que ainda mais tarde, por respeito àqueles que já sofreram intervenções cirúrgicas, foi substituído por ‘tudo feito’.